Precisamos Falar de Assédio Moral

04/11/2016 • Destaque

A definição legal de Assédio Moral aportou no universo corporativo com o rótulo de vantagem para o colaborador e desvantagem para a organização. Em um País no qual alguns segmentos ainda estimulam o confronto trabalhador-empregador e o consequente ganha-perde, a competente teoria desenvolvida pela psiquiatra francesa Marie-France Hirigoyen talvez custe a adquirir o status merecido.

Para muitos empresários e gestores o assunto tornou-se tabu. Parece que levar o tema para o centro das atenções equivaleria a provocar uma série de ações judiciais. E, enquanto evita-se falar no assunto, a violência velada presente nas relações está comprometendo o desempenho dos colaboradores e a competitividade do negócio.

Para compreender melhor o Assédio Moral, vale um revisão de seu conceito. Segundo Dra. Marie-France, autora do livro “Assédio Moral: A Violência Perversa no Cotidiano”, trata-se de “Toda e qualquer conduta abusiva manifestada através de comportamentos, palavras, atos e gestos que possam trazer danos à personalidade, à dignidade ou à integridade de uma pessoa”. Para que se caracterize como tal deve ocorrer sistematicamente dentro de uma relação na qual um indivíduo possua poder sobre o outro – seja esse poder formal ou informal.

Pode-se dizer que o assédio moral é tão antigo quanto o próprio trabalho, pois sua prática se traduz em situações que todos nós já vimos ou vivenciamos ao longo de nossas carreiras. Manifesta-se muitas vezes pela comunicação ou por sua ausência. Isso mesmo: recusar o diálogo é uma forma de assédio, que se caracteriza por pouca comunicação verbal, ausência de resposta formal a documentos enviados ou, até mesmo, dificuldade para agendar reuniões.

Distorcer a comunicação é outra das manifestações de assédio, marcada por frases evasivas que propiciam interpretações diversas e mal-entendidos. Muitas vezes frases agressivas são ditas em tom tranquilo, o que confunde o interlocutor.

A desqualificação, presente em muitas relações pessoais e profissionais, é considerada uma das mais perversas formas de assédio. Levando-se em consideração que o ser humano necessita do outro para melhor perceber-se, o fato de ser continuamente desqualificado ou não ter suas qualidades reconhecidas, afeta a imagem que possui de si mesmo e sua autoestima.

Foi o filósofo inglês Charles Handy que disse em um de seus ensaios, que em seus piores momentos chegou a acreditar que as empresas tinham se tornado “Instituições administradas por sádicos, com um estafe de masoquistas”. Embora pesada, a frase descreve a situação aguda na qual algumas organizações podem se encontrar neste momento.

Encarar de frente a dinâmica das relações é palavra de ordem para quem busca perpetuar e expandir seu negócio. Embora o Brasil caminhe a passos lentos, algumas empresas já estão agindo de maneira preventiva. “Estabelecer canais de comunicação de mão dupla e capacitar os gestores são as principais medidas”, afirma Dra. Marie-France.

Uma postura pró-ativa diante da contenção do assédio moral implica em ganho coletivo. Ganha o trabalhador, que encontra na empresa um ambiente mais saudável. Ganha a empresa, que propicia condições adequadas à produção e minimiza a evasão de talentos. E, finalmente, ganha o País pelas inúmeras questões sócio-econômicas correlatas.

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