Blog - Exibir Post

"Meu Trabalho Virou uma Palhaçada"

  • 03/04/2020
  • Helayne Cortez para Revista Feliciência

"...A atiradora de facas com a língua afiada explica a regra do jogo Ninguém contraria o chefe porque ele cospe fogo Mas aparece o ilusionista anunciando a sexta-feira E o palhaço que perdeu a alegria procurando se encontrar Leva no peito um sorriso estampado no crachá Debaixo dessa careca, eu sei que existe uma peruca e aquela ideia maluca De quem sabe um dia ser feliz Debaixo da maquiagem, eu sei que existe um palhaço Que vai entender que o fracasso é não assumir o seu nariz..." (A Maldição de Ser Feliz - REVERB Poesia)    

Ao som de REVERB Poesia, um palhaço vestido com um jaleco aparece. A música "A Maldição de Ser Feliz" fala sobre uma rotina que ele conhece bem: são as rimas de expediente do mundo corporativo. Do bolso, ele saca uma cédula gigante e diz que ganha um dinheirão pelo serviço voluntário que faz. Chama de gratidão a remuneração mais valiosa que alguém pode receber e apresenta um novo título para explicar o traje. A plateia está diante de um "Besteirologista, de Boston". É assim que Fernando Brancaccio Neto se apresenta quando está vestido de Netôncio Bolotta.


Alguns ainda se espantam e duvidam: seria mesmo o ex-vice-presidente de RH daquela multinacional francesa? E o que afinal teria acontecido com o executivo workaholic para que trocasse a mala de viagens pelo ukulelê? Fernando se demitiu depois de 25 anos de uma carreira meteórica. O estagiário que virou gestor de quase seis mil pessoas, conquistou o status de um crachá que abria muitas portas no Brasil e no mundo, mas o trancava num espaço apertado e solitário. Era dono de uma conta bancária aparentemente de sucesso, mas tinha um saldo negativo do maior e mais arriscado investimento que fez: a saúde, que se esvaiu no meio de tudo isso. Para sobreviver, tirou o terno e colocou o nariz de palhaço. A graça do que ele faz está em mostrar que o contrário de divertido não é sério, mas chato. E que a jornada profissional pode ter seriedade com um sorriso no rosto. Nesse bate-papo, Fernando ou Netôncio, como você preferir, mostra que, dentro das empresas, para não adoecer pessoas é preciso ter muita competência. E que ser feliz no trabalho é uma escolha que exige, sobretudo, extremo comprometimento.
 

Quando seu trabalho virou uma palhaçada?


Quando perdi a graça na vida e percebi que não encarava mais o que acontecia com o olhar do palhaço, de quem tenta fazer o melhor mesmo sabendo que não será perfeito. Porque é aí que está a graça de tudo. Errar, mas fazer. Se permitir, ser vulnerável. O palhaço ri de si e ri com os outros, nunca dos outros. Eu me tornei mais um sério que tinha virado um chato. Não sabia mais sorrir e não sabia mais fazer as pessoas sorrirem.  

Quem era você antes do Netôncio?


Sou filho da Marli e do Antônio, irmão caçula da Ana Paula, marido da Lídia, pai da Mariana e do Antônio, mas de repente eu era só o VP de RH. Cruzava os aeroportos com uma mala preta de rodinhas. Cada vez que pegava nela ouvia minha filha dizer: "você vai viajar de novo?". E eu dizia: "mas vou te trazer uma surpresa muito legal". Eu tentava comprar minha ausência. Só depois percebi que não existe essa compensação.  

O que era ser bem-sucedido para você?


Eu nasci na periferia da zona leste de São Paulo. Dos três aos 18, morei numa rua que inundava. Não esqueço a primeira vez que saí da cama e coloquei um dos pés no chão e senti a água gelada, eu tinha três anos. Até hoje não durmo bem quando chove. Desde muito cedo eu entendi como era duro ganhar e doloroso perder. Minha mãe era uma dona de casa artesã. Meu pai, um ex-militar que trabalhou muito. Passamos muita vontade, então vencer na vida, para mim, era sair daquele contexto e, neste sentido, qualquer excesso parecia valer a pena para conquistar alguma coisa, inclusive a dignidade.
 

Você planejou ocupar um cargo na alta gestão?


Não. Comecei o estágio aos 16. Um dia eu era estagiário, no outro engenheiro. Gostava de conversar com os trabalhadores que vinham de longe para as grandes obras em São Paulo. Eu sempre gostei mais de problemas humanos do que matemáticos. Meus superiores perceberam isso e assim fiquei dez anos como gestor de recursos humanos.  

Tinha ideia da pressão que iria enfrentar?


No início não, mas fui descobrindo que a vida de executivo era solitária. E que a solidão era a única coisa que eu compartilhava com a família. Eu sentia a pressão de todos os lados.  

Quanto gastou de saúde para ganhar dinheiro?


Eu saí do mundo corporativo doente e, pior, sem saber o que tinha. Primeiro foi o diagnóstico de burnout, depois as complicações que a síndrome trouxe. A obesidade foi uma delas. Além da fibromialgia e uma artrite psoriática, doenças autoimunes que apareceram um ano depois do desligamento e que custarão tratamentos para o resto da vida. Sinto dores por causa do enrijecimento das articulações. Uma dor limitante.  

Qual foi o ponto decisivo para a demissão?


Quando a empresa, com sede na Europa, anunciou que venderia as atividades na América Latina ? e eu era responsável por essa área. Eu já tinha passado pelo processo de fusão de duas multinacionais, então sabia o que aconteceria. E tinha que manter o sigilo. Este foi o meu conflito ético mais penoso. Eu tinha que motivar pessoas que talvez fossem desligadas, atrair novos talentos sem planos de carreira. Fiquei um ano e três meses sofrendo. Foram crises de ansiedade que eu precisava esconder para a equipe não perceber. Eu tinha que ser forte, mas as pessoas diziam: "você está muito intolerante e explosivo". Minha marca registrada era o bom humor e eu não me reconhecia mais naquele papel. Foi o meu alarme.
 

O que nasceu depois que o executivo se despediu?


Um pai, um marido...outra pessoa. Tenho algumas datas importantes na vida: meu nascimento, meu casamento, o nascimento dos meus filhos e o meu renascimento no final de 2013. Nascia o propósito de levar alegria para o ambiente de trabalho.  

Assim surgiu a sua empresa, a FairJob?


A FairJob é uma evolução de outras ideias que apareceram antes. Eu comecei a empreender no riso com a FairFun pensando no conceito da diversão limpa, do jogo limpo, depois criei a plataforma de humanização, ética e inovação corporativa. O início de tudo foi a minha busca pelo sorriso perdido. Decidi fazer um curso de palhaço. Eu queria entender o mecanismo do riso que não conseguia mais dar, nem provocar. Até que recebi um convite para conhecer um trabalho voluntário e, por coincidência, reencontrei palhaços que nos levaram acalento numa UTI quando minha filha teve uma complicação logo que nasceu. Senti que era o momento de expressar essa gratidão. O Netôncio Bolotta nasceu para agradecer as chances que a vida nos dá de sorrir de novo. Aprendi muito com ele, teria errado menos como executivo se o Netôncio tivesse me ensinado a tempo sobre tolerância e empatia.  

Quando esse palhaço entrou também nas salas corporativas?


O palhaço representa meu resgate da alegria, do contato com a humanidade do outro. Percebi que para ser o palhaço genuíno ? e não aquele bobo que as vezes nos fazem ? é preciso entender tanto de respeito... saber, por exemplo, quando falar e quando calar. Criar conexão, ler o outro, se importar. Aí me dei conta de que faltava muito disso nos ambientes corporativos. Criei a audito-ria, uma brincadeira com questionário sobre quantas vezes as pessoas riam por dia, se preferiam o horário de entrar ou de sair. A brincadeira ficou séria e minha experiência com números me mostrava que era possível mensurar o bem-estar e descobrir indicadores do quanto as pessoas estavam infelizes no trabalho.
 

O que esse palhaço tem de mais sério?


Ele mostra que o verdadeiro engajamento não leva à exaustão e nem coloca suas relações mais importantes em risco, menos ainda a sua saúde. Decidi estudar neurociência justamente por isso, para entender a biologia do riso, como agem os neurotransmissores da felicidade, como adormecer a dor e deflagar os efeitos da alegria. Essa é a mensagem de seriedade. Minha tese é sobre o riso como combate ao estresse crônico no ambiente corporativo, ou seja, tudo para me curar de mim mesmo.
 

Você se promoveu?


Sim! Eu fui abençoado. Fazer alguém rir na fragilidade é impagável. Isso vale para uma criança que está no leito de um hospital ou um colaborador doente na cadeira de um auditório. É uma grata felicidade estar num lugar de dor e levar alívio. Despertar as pessoas que competência não tem nada a ver com cara feia. O justo é leve. Quando os graves efeitos de uma política austera geram adoecimento é desumano. A ideia é que cada um seja dono do seu próprio nariz.



Voltar